quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Nem tudo são Flores

Ligeiramente atrasado e sem saber ao certo qual ônibus tomar, vejo um sujeito com a camisa do San Lorenzo na Avenida Puyerredon ( a poucas quadras da minha casa, porém ainda longe do meu destino final: o bairro de Flores). Pergunto se ele sabe qual coletivo posso tomar para chegar ao estádio do seu time, e ele me responde, com um castelhano fluente, que não sabe e me pergunta se quero ir de táxi com ele e mais um amigo. Reluto um pouco, mas acabo aceitando sua ideia por causa do pouco tempo que faltava para o início do jogo contra o Estudiantes e devido a minha falta de entrosamento com o guia de ônibus de Buenos Aires. Dentro do carro, descubro que os dois são israelenses e o único que fala espanhol me diz: “Nunca tome um táxi com desconhecidos. Mas fique tranqüilo porque estamos passeando também e nada vai te acontecer.” Fico um pouco gelado, mas confiante que vou chegar vivo ao jogo. E chego.

El Nuevo Gasómetro


O papo durante o trajeto até Flores foi ótimo. Um dos israelenses era filho de argentinos e me deu várias dicas sobre a cidade e lugares que ele já conheceu na América do Sul. Parecia que ele era sul-americano e eu, um forasteiro vindo de muito longe. Achava que tinha arranjado companhia para assistir o jogo. Que nada! Saindo do táxi, ele falou: “Cuidado com a carteira. Nos vemos!” O bom é que pude explorar à minha maneira a “Ciudad Deportiva”, uma das quatro sedes do Club Atlético San Lorenzo de Almagro. É um terreno de vinte e sete hectares. Dentro dele, há quadras de futebol de salão e basquete, uma piscina, área de lazer para crianças, um restaurante, lojinhas que vendem produtos oficiais do clube, campos de futebol e o Estadio Pedro Bidegain, mais conhecido como “El Nuevo Gasómetro”. O clube foi fundado no bairro de Almagro, mas seu primeiro estádio, “El Gasómetro”, se localizava em outro bairro: Boedo. Dentro da “Ciudad Deportiva”, havia muitas pessoas distribuindo panfletos de um movimento que defende a construção de um novo estádio em Boedo. Elas alegavam que mandar os jogos neste bairro faz parte da identidade do San Lorenzo.

parte da "Ciudad Deportiva"


Estava encantado com tudo que havia na “Ciudad Deportiva” até o momento da compra do ingresso. As bilheterias estavam improvisadas dentro de dois trailers velhos, sujos e caindo aos pedaços. E mais incrível ainda: cambistas agiam livremente. Dentro da sede do San Lorenzo e em frente a vários policias, os aqui chamados revendedores não faziam a menor questão de serem discretos. Parece que não é só no Brasil que esses criminosos contam com a ajuda de gente de dentro do próprio clube. Minha outra decepção ficou por conta da ausência de Juan Sebastián Verón, “La Brujita”, do lado do Estudiantes de La Plata. Mas quem não tem bruxa caça com gata. “La Gata” Fernández, autor de um dos gols do título da Libertadores conquistado pelo Estudiantes ano passado, fez o único gol da partida. Um golaço por sinal: deixou goleiro e um zagueiro sentados antes de empurrar a bola em direção a rede para delírio da torcida vermelha e branca, que se fez presente em ótimo número. De La Plata (capital da província de Buenos Aires) à cidade de Buenos Aires (capital federal) são, aproximadamente, 55 km de distância.


bilheterias


A quem for um dia ao “Nuevo Gasómetro”, fica a dica: combine com um taxista de buscá-lo após o fim do jogo. Flores não é um bairro turístico e o estádio do San Lorenzo está localizado em uma região que, de noite, torna-se deserta e, aparentemente, perigosa. Assim, táxis são uma raridade por ali. Saí do estádio às 18:00 e só às 19:00 passou um ônibus que me servia. Durante essa uma hora de espera pelo coletivo, tentava conseguir um táxi, mas os poucos que passavam estavam sempre cheios. Bem que o israelense tinha me avisado que isso ia acontecer... Hasta la próxima cancha!